27/12/2020

Caderno de um ausente, João Anzanello Carrascoza

 


🎧 Mad Rush, Philip Glass

Quando uma criança nasce, nascem também expectativas, medos, incertezas, uma mãe, um pai (ausente ou não), lágrimas, retratos, fábulas, histórias, novas histórias e outras histórias. 

O nascimento é sempre uma estreia, um novo estar na vida de cada ator desse intenso e incerto cenário da existência humana. E é no nascimento de Bia que começa uma nova história, a história de um pai.

Por seu formato, o romance não se encaixa exatamente no gênero epistolar, mas toda a narrativa vai dirigida a um tu: Bia, a filha mais nova, que acaba de nascer. E, assim como o título anuncia, trata-se de um caderno de notas, como um diário que se estende durante todo o primeiro ano de vida de Bia.

É através das lentes e das memórias que registra em seu caderno que o pai se apresenta à Bia. A maneira como olha cada movimento de sua mulher: seus silêncios, seus gestos, sua forma de viver a gestação e o risco de perdê-la. O casamento anterior, o pai que foi ao filho mais velho, o pai que é e o pai que passa a ser a partir de então. Os laços de convívio com seus pais, seus irmãos, seus avós – avós, tios e bisavós de Bia – delineiam memórias e afetos com os quais anseia que a filha se conecte futuramente.

Mas o marco central de suas notas é a ausência. A ausência de si, que se anuncia antes a ele por ver-se pai aos cinquenta e poucos anos e, por isso, compreender como escasso o tempo que lhe resta para acompanhar todos os passos da filha até sua vida adulta.

O tempo passa e corrói os dias assim como os espaços de memórias. Assim, a ausência lhe é presente também pela falta de seus antepassados e deixa marcas nas páginas do livro por meio de tarjas brancas. Faixas horizontais que se interpõem entre palavras como lacunas de memórias e presenças que se anunciam na concretude de suas ausências, deixando entrever sua própria ausência futura.

Caderno de um ausente é, em síntese, a elaboração de um luto prenunciado, mas inevitável.


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