![]() |
| 🎧 Mad Rush, Philip Glass |
O nascimento
é sempre uma estreia, um novo estar na vida de cada ator desse intenso e
incerto cenário da existência humana. E é no nascimento de Bia que começa uma
nova história, a história de um pai.
Por seu formato, o romance não se
encaixa exatamente no gênero epistolar, mas toda a narrativa vai dirigida a um
tu: Bia, a filha mais nova, que acaba de nascer. E, assim como o título
anuncia, trata-se de um caderno de notas, como um diário que se estende durante
todo o primeiro ano de vida de Bia.
É através das lentes e das
memórias que registra em seu caderno que o pai se apresenta à Bia. A maneira
como olha cada movimento de sua mulher: seus silêncios, seus gestos, sua forma
de viver a gestação e o risco de perdê-la. O casamento anterior, o pai que foi
ao filho mais velho, o pai que é e o pai que passa a ser a partir de então. Os
laços de convívio com seus pais, seus irmãos, seus avós – avós, tios e bisavós
de Bia – delineiam memórias e afetos com os quais anseia que a filha se conecte
futuramente.
Mas o marco central de suas notas
é a ausência. A ausência de si, que se anuncia antes a ele por ver-se pai aos
cinquenta e poucos anos e, por isso, compreender como escasso o tempo que lhe
resta para acompanhar todos os passos da filha até sua vida adulta.
O tempo passa e corrói os dias
assim como os espaços de memórias. Assim, a ausência lhe é presente também pela
falta de seus antepassados e deixa marcas nas páginas do livro por meio de
tarjas brancas. Faixas horizontais que se interpõem entre palavras como lacunas
de memórias e presenças que se anunciam na concretude de suas ausências, deixando
entrever sua própria ausência futura.
Caderno de um ausente é, em
síntese, a elaboração de um luto prenunciado, mas inevitável.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.