27/12/2019

A vegetariana, de Han Kang


 
O romance é dividido em três partes: I. A vegetariana; II. A mancha mongólica; III. Árvores em chamas. Três visões sobre um mesmo personagem e as incertezas por que são acometidos seus familiares diante das escolhas de uma mulher que, no âmago de uma sociedade patriarcal, decide deixar de comer carne.
A primeira parte do livro é narrada em primeira pessoa pelo marido de Yeonghye, a vegetariana: “Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano.
Assim abre o livro Jeong, o marido, que a descreve como uma mulher “sem frescor, brilhantismo ou refinamento” e que, por isso mesmo, se sentia confortável com suas imperfeições. Não se sentia na obrigação de parecer inteligente ou de cuidar de sua aparência. Aos vinte e poucos anos já tinha uma barriga desleixada para um cara jovem, não se preocupava com sua performance sexual nem com seu pinto pequeno porque não a achava interessante, atraente ou bonita. Tampouco a achava tão feia, a ponto de sentir vergonha de exibi-la aos colegas de trabalho. Convenientemente invisível.
Além disso, cumpria com sua “função de esposa sem grandes dificuldades”, além de ajudar com as despesas com seu modesto salário de auxiliar de professora em uma escola de informática.
É através das descrição que faz Jeong de sua esposa que se constrói este personagem. Um cara jovem mas acomodado, que arrasta sua inexpressividade numa vidinha ordinária de escritório para casa e, em casa, entorpecido diante da TV. Não se conversavam e quase não transavam. O casamento era, para ele, a máscara ideal para esconder sua mediocridade.
Yeonghye só passou a afetá-lo quando, numa madrugada, a encontrou na cozinha escura, diante da geladeira, estática e simplesmente lhe disse que havia tido um sonho. Afetar, nesse cenário, não alcança nenhuma dimensão do que possa representar afeto. A preocupação de Jeong não era com o que poderia estar acontecendo com Yeonghye, mas com o fato de ter se atrasado por ela não tê-lo despertado, não ter cumprido sua função de cuidá-lo.
A decisão de deixar de comer carne lhe vem por conta de uns sonhos que passa a perturbá-la e não a deixa dormir. A presença de pedaços de carne pendurados e muito sangue em seus sonhos a faz crer que deve parar de comer carne.
E é nas descrições desses sonhos os únicos momentos em que a voz de Yeonghye é pronunciada. Os sonhos, da forma como são descritos parecem estar registrados em uma carta ou diário de sonhos, isso não é explicado. Essa voz não parece ser a da oralidade na inter-relação com seu marido ou com alguém próximo a ela porque não há respostas ou reações às suas mórbidas narrativas. Talvez seu próprio pensamento...
A situação física e psíquica de Yeonghye se agrava sobretudo depois de ser agredida por seu pai, quando este a força engolir um pedaço de carne. Deixar de comer carne é uma transgressão tão grave como a de não obedecer marido e pai. A narrativa a partir daí toma caminhos mais obscuros,
Yeonghye provoca um jorro de sangue sobre sua família ao cravar uma faca em seu próprio punho, é internada e passa a agir de forma cada vez mais distante, Jeong não segura a onda e a abandona.
Na segunda parte, um narrador onisciente retrata Yeonghye a partir da ótica de seu cunhado, um artista plástico cheio de frustrações que vive uma realidade burguesa, muito diferente da de Yeonghye e Jeong. Aqui a construção de Yeonghye aos olhos do leitor muda completamente. 
É possível perceber uma mulher exótica mas, extremamente sedutora.
A loucura nesse contexto se manifesta muito mais pela crescente obsessão do cunhado por Yeonghye que por seu progressivo desvario.

E, por fim, o terceiro olhar à Yeonghye, no qual a vegetariana não é descrita nem como ofuscada, nem como arrebatadora. Yeonghye aos olhos da irmão, nunca deixa de ser a irmã caçula de uma mulher passou sua vida preservando sua imagem de mulher perfeita. Perfeita filha, perfeita irmã, perfeita esposa e mãe. Compreende a todos e carrega dentro de si o peso da culpa a cada gesto seu. O peso de ser mulher e, sobretudo, o peso de ser mulher em uma sociedade que condena as subjetividades do feminino.

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