Após uma década
de controle e censura sobre todas e quaisquer manifestações artísticas e
culturais que se opusessem ao Estado (1964-1974), a abertura política no Brasil
começa a dar os primeiros sinais e é nesse período que os mais variados
movimentos de oposição, à luz da contracultura brasileira, começam a ganhar
força. Na esteira dessas manifestações, um movimento editorial, em oposição ao
regime ditatorial, começa a tomar corpo. As publicações de viés
contestatório começam a ganhar espaço assim como as manifestações estudantis, o
movimento negro, os ecologistas, a revolução feminista e, mais tarde, já no
início da década de 80, o movimento gay e lésbico articulam-se em defesa de
visibilidade. E, apesar de ainda subsistir sob a sombra da ditadura, a palavra
de ordem é subverter para sobreviver.
É nesse cenário
que, em 1982, Caio Fernando Abreu lança seu sexto e mais conhecido livro, Morangos
Mofados, uma compilação de dezoito contos, dividido em
duas partes: O Mofo, que reúne os nove primeiros contos e Os Morangos,
que comporta os demais e inclui o conto que dá título ao livro. O eixo condutor
que perpassa a obra é o contexto no qual se insere o autor: uma galeria de
referências musicais, cinematográficas, plásticas e literárias por onde
circulam personagens que, subversivamente, sobrevivem a todas as formas de
opressão.
Nesse contexto,
o conto Os Sobreviventes é um dos mais emblemáticos por
retratar personagens que, bem como Abreu e toda uma geração de artistas
cerceados pelo regime ditatorial, sobrevivem na subversão, seja com relação à
forma ou ao conteúdo da narrativa.
Assim como os demais contos reunidos em Morangos Mofados, Os Sobreviventes é dedicado a alguém do meio pessoal do autor
– “Para Jane Araújo, a Magra” –, além das inúmeras citações e epígrafes que
atravessam a obra e introduzem o leitor a suas afinidades, gostos e afetos.
Antes de iniciar a leitura do conto, o leitor se depara com uma instrução:
“(Para ler ao som de Angela Ro Ro)”. E é essa a porta que o faz entranhar-se no
universo de Caio Fernando Abreu, num espaço e tempo permeados por referências
culturais que se interpõem; um grande mural de colagens que remetem o leitor à
sua esfera musical, filosófica, poética, política, ideológica e afetiva.
O conto se estrutura em um diálogo informal entre dois personagens
dentro de um apartamento e é desenvolvido em um só parágrafo. As vozes de ambos
se amalgamam sem pontos, travessões ou qualquer marcação formal própria do
discurso direto. As enunciações que indicam a quem pertence o turno de fala são
escassas e em alguns momentos só é possível identificar a voz do personagem
pelo gênero dos adjetivos ou substantivos referenciados: “Quanto a mim, a voz tão rouca, fico por aqui mesmo comparecendo a
atos públicos, pichando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia
de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Teresa de
Calcutá [...]” [grifo meu]
A personagem feminina, assim como o personagem narrador, se
apresenta e se estrutura ao leitor através de suas colocações com relação às
questões existenciais, políticas e ideológicas. No fragmento acima a personagem
expressa suas oscilações de humor, entre a luta e o cansaço, em meio às incertezas
vivenciadas por uma geração que viveu por mais de duas décadas sob a égide da
censura.
Outrossim, as vozes se intercalam por meio das alusões que fazem os
personagens quanto à fala ou às partes do corpo um do outro, embora a pontuação
possa indicar o contrário: “Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não para,
tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum físico, eu não
queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos
superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados, mas no
final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não
levantou.” [grifo meu]
No excerto acima inicialmente identificamos a voz do personagem
narrador, que referencia a fala da segunda personagem (“mas ela não para”).
Em seguida, esse mesmo narrador, por meio do uso da pontuação, dois pontos,
parece anunciar a própria fala (“eu não queria aceitar que fosse isso:”),
entretanto o leitor é novamente surpreendido com a menção ao corpo feminino em
primeira pessoa (“mas no final das contas os bicos dos meus peitos não
endureceram e o teu pau não levantou.”). Assim como em outros momentos em que a
alternância de vozes se dá separada somente por uma vírgula: “[...]
eu então estendo o braço e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu
peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e velha demais e
completamente bêbada, eu não tinha estas marcas em volta dos olhos, eu não
tinha estes vincos em torno da boca, eu não tinha este jeito de sapatão
cansado, e eu repito que não, que nada, que ela está linda assim,
desgrenhada e viva, [...]” [grifo
meu]
Nessa fusão de vozes se alternam tomadas de decisões
político-ideológicas que, se por um lado os contrapõem, por outro os irmana
numa mesma realidade. Ele faz planos de exilar-se possivelmente no Sri Lanka,
pequeno e distante país insular ao sul da Índia. Enquanto ela, quase sem voz de
tanto protestar, se mantém na resistência, alternando-se entre drogas e
meditação, protestos e um emprego formal em uma multinacional, o que sublinha suas
contradições.
Os encontros e desencontros entre os dois personagens traçam um fio
que conduz e estruturam o tempo da narrativa, que é psicológico, uma vez que os
deslocamentos temporais se dão por meio de memórias: “As pessoas se
transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e
suja, as noites não terminavam nunca, [...]”.
Ademais, as menções que faz a “noites” ou “noite” são de outra
ordem, como quando observa: “nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos
mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando.”. A noite aqui anunciada, como no período anterior, não faz alusão à
relação temporal, mas apresenta-se como forma de metaforizar as sombras da
opressão que ainda os ronda e os faz desconfiar e temer os delatores
pró-regime.
A única referência espacial possível de se afirmar é que o diálogo
transcorre no interior de um apartamento de uma grande cidade que tanto pode
ser São Paulo, como no trecho que menciona o Ferro’s Bar, como também o
Rio de Janeiro, como quando, já no final do conto, menciona o Leblon, ambas as referências
aludem a espaços de boemia urbana da década de 1980. Dessa forma, o que poderiam
ser referências espaciais, neste conto sublinham o marco do que foi um corpo
social que
perambulava pelo não-lugar.
O que hoje no Brasil é reconhecido como comunidade LGBT, na década
de 1980 não ia além de isoladas tentativas de organizar-se até que eram
duramente reprimidos, inclusive por grupos que se afirmavam como progressistas,
os movimentos de esquerda, por exemplo.
No conto, Abreu coloca essa contradição na voz de um
dos personagens: “[...] não, não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada
contra decadentes em geral, não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma
tentativa.”. A contradição aqui se apresenta por duas
vias, dentro da própria frase do personagem que afirma não ter nada contra
lésbicas mas a classifica como decadente e a “coisifica” como uma tentativa, e
por ser o próprio narrador também homossexual.
Desses deslocamentos e contradições dos personagens emergem
questões existenciais que retratam situações e sentimentos universais como
solidão, medo, incertezas, opressão, angústia e desencontros amorosos. E, nessa
amálgama, a subversão se apresenta como a tônica para os sobreviventes dessa geração.
Subversão essa que é expressa no conto em diferentes aspectos, sejam eles
formais: por meio da ruptura com a norma padrão de construção textual, o uso de
palavrões, o texto escrito em um só parágrafo e as pontuações, tal como
brevemente ilustrado anteriormente. Como também no que tange à análise
interpretativa do conto, com base em sua forma, que abre para a possibilidade
de reconhecer nesses dois personagens um só indivíduo, com suas dores, amores,
hesitações e ambiguidades, que, talvez o próprio Caio Fernando concordaria,
poderia ser expressa na canção Mal Necessário:
Sou
um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou
a mesa e as cadeiras deste cabaré
Sou
o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Sou
a febre que lhe queima, mas você não deixa
Sou
a sua voz que grita mas você não aceita
O
ouvido que lhe escuta quando as vozes se ocultam
Nos bares, nas
camas, nos lares, na lama.
ABREU, Caio Fernando. Os Sobreviventes. In: Morangos Mofados. Contos
Completos. São Paulo: Cia. das Letras, 2018. Não paginado.