03/02/2012

A Insustentável Leveza do Ser

Para ouvir durante a leitura: Bethoven Opus 135
Já não lembro mais o ano, 86 ou 87, talvez. Mas o que primeiro me chamou a atenção neste livro foi o título. O que pode definir esse paradoxo, que caberia dizer, tão 'altissonante'? pra não dizer pomposo, que é uma palavra que, a mim particularmente, não soa muito bem. Já não lembro o que trazia o texto de apresentação da quarta capa, mas o fato é que o comprei.
Grudei no livro e, não fosse o cansaço do meu primeiro emprego aliado ao colégio à noite, o teria terminado em uma semana. Não, eu não abandonei o livro, eu dormi no ônibus e o perdi. Aliás, este não foi o único, mas isso é outro tema.

O livro eu perdi, mas a narrativa continuou girando na minha cabeça por 25 anos (até agora não entendo porquê tanto tempo...) até que em 2011 resolvi (re)comprá-lo. Agora numa versão pocket da Cia. das Letras - a capa da imagem é a daquele primeiro livro perdido. E o melhor, descobrir que o livro não envelheceu.

Não se trata simplesmente de contar uma história, Kundera constrói universos através de seus personagens. Quatro pessoas, dois homens e duas mulheres, que desenham suas vidas de forma completamente antagônicas, um jogo de espelhos. Franz e Teresa buscam no outro sua zona de conforto, enquanto Tomas e Sabina buscam a leveza, a tão sonora, porém insustentável, leveza do ser.

Kundera é sempre a voz da narrativa e não passa isento por ela, dialoga com o leitor e o conduz a estes quatro universos como se fosse quatro espelhos que, mesmo refletindo realidades diversas, reproduzisse a voz do narrador.

Tomas transita entre sua necessidade de liberdade, leveza que encontra em Sabina e nos lençóis de outras centenas de amantes sem nomes e sem rostos, e seu amor e sua culpa por ter Teresa ao seu lado, seu peso. Mas o peso não é para Tomas o mesmo peso dos casamentos desgastados, o peso é seu amor, sua necessidade de estar ao lado de Teresa e culpa por não poder fazê-la feliz. Sente necessidade de protegê-la e isso o coloca em uma posição privilegiada nesta relação. É ele quem sente compaixão, ela a peça frágil, passível de pena e cuidados.

Teresa vive com os fantasmas de seu passado pobre em um vilarejo e os insultos de uma mãe ressentida por sua beleza e juventude perdida. Vê em Tomas sua ascensão, a saída de uma vida 'pequena' para um universo que julga superior ao seu. Mas seu grande sofrimento é a impossibilidade de reter Tomas. Sua evanescência a perturba em sonhos, que se tornam cada vez mais presentes e correlatos com a realidade.

Franz, ao contrario de Teresa, busca no peso de uma relação estável encontrar a força materna. Transpõe para Marie-Claude, sua esposa, a imagem de sua mãe e passa anos ao lado de uma mulher que na verdade despreza. Encontra em Sabina a leveza que necessita para contrabalançar uma vida de peso, mas em contrapartida, começa a fazer dessa relação seu novo ponto de equilíbrio.

A evanescência de Sabina, ou sua leveza, é diferente da de Tomas. Para Tomas a leveza lhe é inevitável simplesmente porque é essa sua natureza. Kundera não expõe nenhuma justificativa em sua história pregressa. Sabina, por outro lado, busca em sua leviandade desestruturar sua memória familiar. Mas até que ponto pode aguentar essa insustentável leveza?
 

«O drama de uma vida sempre pode ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo nos ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não, lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? Nada. Deixara um homem porque quisera deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não. Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza dos ser.»

Os espaços que a narrativa ocupam não contradiz o jogo de claros e escuros. O ponto de referência inicial é Praga, 1968 - a Primavera de Praga - e seu peso histórico-político. O outro extremo, Nova York, a babel da leveza ocidental.

"Muss es sein"


KUNDERA, Miller. A insustentável leveza do ser. Tradução: Teresa Bulhões - São Paulo: Companhia das Letras, 2008