Fernando Bonassi já figurava entre os nomes de escritores brasileiros
contemporâneos de quem ouvia e ouço falar sempre mas nunca tinha lido
nada.
Voltando do trabalho, ouvi uma entrevista sua na Rádio Cultura
comentando seu último romance: Luxúria.
O que me chamou a atenção, além do que falou sobre o romance em si, foi
sua forma direta de falar, inteligente, sem qualquer esforço de parecer
simpático, meio ranzinza até.
E, como normalmente faço antes de ler um romance, conto ou o que quer
que seja, fui procurar um pouco sobre ele, escutá-lo em entrevistas e mesas de
debates. A impressão se manteve: inteligente, coerente e sisudo.
Mas isso na realidade não vem ao
caso, exceto pelo fato que me aguçou mais a curiosidade de conhecer sua
escrita.
O livro conta a história de um homem que decide instalar uma piscina no
quintal de sua casa e paga alto, não só pela obra em si, mas pelo preço da
vaidade. Talvez o título não tenha esse, Vaidade, exatamente para não parecer
óbvio.
A história, na verdade, é plano de fundo pra uma crítica ácida dirigida a
uma classe média em ascensão, que vive um momento de "prosperidade"
da economia no Brasil.
O desprezo do autor-narrador antecede o início da narrativa:
"Baseado em pessoas e acontecimentos reais,
lamentavelmente."
Não por acaso, os personagens, não têm nome nem qualquer traço de
inteligência - "o homem do qual se trata este relato", "a mulher
do homem deste relato", "o menino", "a diarista", etc.
- exceto o cachorro, Thor, o único personagem que tem nome e que, ironicamente,
é o oposto do deus nórdico da força, coragem e proteção.
Os humanos, portanto, estão um nível abaixo do animal.
O enredo em si avança de forma lenta, alternando entre as rotinas dos
três personagens centrais, o homem, a mulher e o menino, numa gradação que
caminha irremediavelmente à ruína.
O homem é um engenheiro que trabalha há anos em uma indústria
metalúrgica e que, por ter formação técnica, tem um cargo acima dos demais
operários, porém abaixo dos grandes chefes, e é exatamente a mesma posição que
ocupa na sociedade. A hierarquia dentro da fábrica é evidenciada pela cor dos
jalecos que usam e o homem desse relato se orgulha da posição que ocupa perante
os demais, goza da confiança dos grandes chefes e do desprezo dos operários, a
quem lhes atribui inveja. Em família ocupa o lugar do provedor, o que leva sustento
e proteção, em troca, da mulher espera sexo e conforto, do filho espera
simplesmente que não lhe cause problemas.
A mulher não demonstra qualquer ambição ou perspectiva, sua única
vaidade é mandar na diarista, a quem ordena, da cama e aos gritos, que faça e refaça o que lhe
é imposto em troca de um pagamento miserável e de “presentes” que não são nada
além de velhos eletrodomésticos e objetos que estavam destinados ao descarte.
O menino, então com 12 anos, vive o drama de viver entre os descompassos
hormonais próprios da idade, sua péssima relação com os colegas de escola e a
iminência de perder seu único e verdadeiro amigo, Thor, o cachorro.
Ao longo da narrativa pensamentos, falas e atitudes (ou a falta delas) constroem
com ironia e um certo escárnio a crítica das principais instituições que regem
essa sociedade: a família, a igreja, as corporações e as escolas.
As três realidades se entrecruzam não só pelos vínculos familiares, mas sobretudo
por estarem circunscritos no círculo do que é mediano, medíocre. Nesse sentido,
e ao estilo de Milan Kundera, o livro poderia chamar-se “O livro da
mediocridade”, mas certamente cairia em outra obviedade, que não é o estilo de
Kundera, nem de Bonassi.
BONASSI, Fernando. Luxúria – Rio de Janeiro: Record, 2015

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